Atletismo · Regras explicadas

Provas combinadas: a tabela de pontos que decide o decatlo

Por Inês Bettencourt
Vista de um estádio de atletismo a partir do parque envolvente
Estádio de atletismo visto a partir do parque envolvente. Fotografia de domínio público (CC0).

Lisboa — uma prova combinada é a única competição do atletismo em que ninguém sabe quem lidera olhando para a pista. A ordem de chegada de cada prova diz pouco; o que decide é uma tabela que converte metros e segundos numa moeda comum.

Dez provas em duas jornadas

O decatlo distribui dez provas por dois dias. Na primeira jornada disputam-se os 100 metros, o salto em comprimento, o lançamento do peso, o salto em altura e os 400 metros. Na segunda, os 110 metros barreiras, o lançamento do disco, o salto com vara, o lançamento do dardo e, a fechar, os 1500 metros. A ordem não é decorativa: alterna corrida, salto e lançamento para que nenhum grupo muscular seja exigido duas vezes seguidas, e termina com a prova mais longa, quando já quase não resta energia.

O heptatlo, disputado por mulheres, segue o mesmo princípio com sete provas: 100 metros barreiras, salto em altura, lançamento do peso e 200 metros no primeiro dia; salto em comprimento, lançamento do dardo e 800 metros no segundo.

A tabela que converte tudo em pontos

Cada marca é convertida em pontos por uma fórmula própria de cada prova, definida nas tabelas internacionais de pontuação. As fórmulas não são lineares: acima de um determinado nível, cada centímetro ou décimo de segundo vale progressivamente mais. Um atleta que melhore de um patamar médio para um bom patamar soma bastante; melhorar de um bom patamar para um excelente soma ainda mais.

As tabelas foram calibradas para que desempenhos equivalentes em provas diferentes valham aproximadamente o mesmo número de pontos. Na prática, o equilíbrio nunca é perfeito, e é dessa imperfeição que nascem os perfis: há decatletas que constroem a classificação nos lançamentos e outros que a constroem nas corridas.

Onde se decide a classificação

Duas provas costumam pesar mais do que as restantes. O salto com vara, porque a diferença entre uma altura transposta e três nulos pode valer várias centenas de pontos — e o nulo é sempre possível, mesmo para um especialista. E os 1500 metros finais, porque chegam com os atletas exaustos e permitem recuperar diferenças que pareciam fechadas.

O regulamento contribui para a tensão. Nas provas de pista há uma tolerância limitada a partidas falsas, nos saltos e lançamentos cada atleta dispõe de um número reduzido de tentativas, e uma prova não concluída retira o atleta da classificação final, por muitos pontos que tenha acumulado até aí.

Como acompanhar uma prova combinada

A regra prática é ignorar as posições de cada prova e seguir apenas a tabela acumulada, publicada pelos organizadores após cada evento. A segunda regra é olhar para as provas em falta: uma vantagem de duzentos pontos antes do salto com vara é frágil; a mesma vantagem antes dos 1500 metros é quase definitiva. E a terceira é reparar em quem cumprimenta quem no fim — nenhuma outra prova do atletismo produz a mesma relação entre adversários que passam dois dias inteiros a competir lado a lado.

Inês Bettencourt

Atletismo, provas combinadas e corridas de estrada. Segue tabelas de pontuação e regulamentos técnicos.

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